Pouco depois das 9h da manhã no horário de Brasília, uma pequena mudança de velocidade marcou o fim de uma viagem e o começo de outra. A mais de 200 milhões de quilômetros da Terra, o Módulo de Transferência de Mercúrio separou-se do restante da missão BepiColombo, encerrando sua função depois de quase oito anos conduzindo a espaçonave pelo Sistema Solar interno.

A confirmação completa chegou às 10h52, quando duas antenas da rede Estrack, localizadas em Cebreros, na Espanha, e Malargüe, na Argentina, receberam o sinal da espaçonave. A telemetria indicou que os sistemas estavam funcionando normalmente e que os painéis solares do Mercury Planetary Orbiter, o MPO, carregavam as baterias como previsto.

A separação é um passo decisivo, mas não representa a entrada definitiva em órbita. A BepiColombo ainda terá de executar uma longa sequência de manobras até que seus dois orbitadores estejam nas posições planejadas ao redor de Mercúrio.

O módulo que levou a missão até Mercúrio

A BepiColombo viajou como uma estrutura composta por diferentes partes. O módulo recém-descartado, conhecido pela sigla MTM, forneceu energia e propulsão durante o cruzeiro interplanetário. Seus motores iônicos aceleravam a espaçonave de forma muito suave, porém contínua, aproveitando eletricidade produzida por grandes painéis solares.

Ligados por milhares de horas, esses propulsores ajudaram a alterar gradualmente a órbita da missão ao redor do Sol. Quando o MTM cumpriu sua última etapa de propulsão elétrica, a espaçonave passou a seguir uma trajetória de queda livre cuidadosamente calculada até o momento da separação.

Agora restam o MPO, construído pela Agência Espacial Europeia, o orbitador Mio, fornecido pela Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial, e a estrutura que protege a sonda japonesa do calor. O MPO passa a fornecer energia ao conjunto e usará propulsores químicos nas próximas manobras.

Como a Terra confirmou uma manobra tão distante

Os controladores não podiam enxergar diretamente a separação nem corrigi-la em tempo real. Os comandos foram preparados com antecedência, enviados pelo espaço e executados automaticamente. Por causa da distância, qualquer informação leva vários minutos para viajar entre Mercúrio e a Terra.

O primeiro indício apareceu em uma alteração no efeito Doppler do sinal de rádio. Assim como o som de uma sirene muda quando uma ambulância se aproxima ou se afasta, a frequência recebida muda quando a velocidade da espaçonave varia. O desvio observado às 9h41 de Brasília correspondia ao pequeno impulso previsto durante a separação.

Esse indício ainda não era suficiente. A equipe aguardou o novo contato com o MPO para verificar a telemetria e o funcionamento dos sistemas. Somente depois desse sinal a ESA declarou a operação bem-sucedida.

Por que chegar a Mercúrio é tão difícil

Mercúrio parece um destino próximo quando comparado aos planetas externos, mas uma espaçonave lançada da Terra já carrega a velocidade orbital do nosso planeta. Para se aproximar do Sol sem passar rapidamente por Mercúrio, ela precisa eliminar uma enorme quantidade dessa energia e reduzir sua velocidade no momento correto.

A gravidade solar torna o problema ainda mais complicado: enquanto a sonda avança para a região interna do Sistema Solar, ela é continuamente acelerada pelo Sol. Segundo a ESA, colocar uma missão em órbita de Mercúrio exige mais energia do que enviar uma espaçonave até Plutão.

A BepiColombo resolveu parte desse desafio com nove assistências gravitacionais: uma passagem pela Terra, duas por Vênus e seis por Mercúrio. Cada encontro alterou um pouco sua trajetória e velocidade. Os motores iônicos realizaram os ajustes entre essas passagens, transformando uma viagem aparentemente curta em um percurso de bilhões de quilômetros.

Miniatura do vídeo: BepiColombo inicia chegada a Mercúrio após separação bem-sucedidaAssistir no YouTube

A chegada ainda levará meses

A próxima data decisiva é 21 de novembro de 2026, quando o conjunto formado pelo MPO e pelo Mio deve iniciar sua inserção em órbita de Mercúrio. Uma série de manobras continuará ajustando a trajetória durante os meses seguintes.

O orbitador japonês Mio deverá separar-se do MPO entre 9 e 10 de dezembro. Poucos dias depois, a estrutura que o protegeu durante a viagem também será descartada. O MPO continuará reduzindo sua órbita até alcançar a região definida para suas medições.

Se todas as etapas ocorrerem conforme o planejado, os dois observatórios começarão as operações científicas regulares em abril de 2027. Portanto, a missão chegou à vizinhança de seu destino, mas ainda não começou a fase principal de exploração.

Dois observatórios para estudar o mesmo planeta

A BepiColombo será a primeira missão a estudar Mercúrio simultaneamente com duas espaçonaves em órbitas diferentes. O MPO permanecerá mais próximo da superfície e investigará a composição do solo, a estrutura interna, a gravidade e o campo magnético do planeta. O Mio seguirá uma órbita mais alongada, concentrando-se na magnetosfera e na interação com o vento solar.

Essa combinação permitirá observar causa e efeito em lugares distintos. Enquanto uma sonda mede partículas e campos longe do planeta, a outra poderá registrar o que ocorre perto da superfície. Os dados deverão ajudar a explicar como Mercúrio preservou um campo magnético global, apesar de ser um mundo pequeno e aparentemente muito antigo.

A missão também estudará depósitos de gelo em crateras permanentemente escuras, as estranhas depressões claras conhecidas como hollows e a exosfera extremamente tênue que envolve o planeta. Cada resposta poderá revelar algo não apenas sobre Mercúrio, mas sobre a formação dos mundos rochosos do Sistema Solar.

O que o sucesso de hoje realmente significa

A confirmação da separação removeu um dos riscos mais importantes da chegada. Sem ela, o módulo de transferência impediria que o restante da espaçonave realizasse corretamente a sequência orbital planejada.

Ainda existem etapas críticas pela frente, especialmente a captura gravitacional em novembro e a liberação do Mio em dezembro. Problemas podem alterar datas ou exigir correções, como ocorre em qualquer operação espacial realizada a centenas de milhões de quilômetros.

Mesmo assim, o sinal recebido hoje mostra que a BepiColombo está saudável, configurada para a próxima fase e finalmente livre do módulo que a trouxe até aqui. Depois de oito anos usando planetas e motores iônicos para perder velocidade, a missão começou, de fato, sua chegada ao mundo mais próximo do Sol.

De onde vêm as informações

Esta matéria foi elaborada com base nas fontes primárias e institucionais abaixo.

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Magnon Silva

Criador do Além da Matéria, projeto dedicado a explicar astronomia, física e exploração espacial com clareza e contexto.