Saturno já possuía uma das estruturas atmosféricas mais estranhas do Sistema Solar: um enorme hexágono girando ao redor de seu polo norte. Agora, o planeta dos anéis acrescentou uma nova figura ao mistério. Imagens do Telescópio Espacial Hubble revelaram uma gigantesca onda de dez lados — um decágono — envolvendo a região do polo sul.

A descoberta não significa que exista uma parede geométrica, uma superfície sólida ou algum objeto artificial escondido nas nuvens. O contorno é produzido pelo movimento da própria atmosfera. Uma corrente de jato oscila ao redor do planeta e, sob condições ainda investigadas, organiza-se em segmentos que lembram os lados de um polígono.

O mais intrigante é que essa estrutura aparentemente não estava ali, pelo menos não de forma persistente, quando a sonda Cassini observou Saturno. Os pesquisadores podem estar acompanhando o nascimento e a transformação de um fenômeno planetário praticamente em tempo real.

O que o Hubble descobriu no polo sul de Saturno?

O novo decágono é uma onda atmosférica gigantesca associada a uma das poderosas correntes de jato de Saturno. Ela aparece entre aproximadamente 58 e 63 graus de latitude sul, formando dez trechos relativamente retos e dez vértices ao redor da região polar.

Observações feitas com diferentes filtros do Hubble enxergam altitudes diferentes nas nuvens e nas camadas de névoa. O desenho muda ligeiramente de posição conforme o comprimento de onda utilizado, indicando que ele não existe apenas no topo visível das nuvens: a estrutura se estende verticalmente por múltiplos níveis da atmosfera.

Essa foi a primeira vez que uma formação grande, persistente e regularmente dividida em lados foi confirmada no hemisfério sul do planeta. Saturno, portanto, tornou-se o único mundo conhecido com dois padrões poligonais gigantes associados às regiões polares — embora eles não sejam cópias um do outro.

Como os astrônomos encontraram o decágono?

A descoberta nasceu da combinação entre observatórios profissionais e astrônomos amadores. Em imagens terrestres reunidas pelo Planetary Virtual Observatory Laboratory, pesquisadores perceberam em 2024 uma ondulação incomum próxima ao polo sul. Novas observações em 2025 deixaram a possibilidade de um decágono ainda mais forte.

Quando a equipe examinou as imagens de maior resolução do Hubble e as reprojetou como se o polo fosse visto de cima, os dez lados se tornaram mais claros. A análise retrospectiva mostrou sinais discretos da estrutura já nos dados de 2023, antes que ela adquirisse o contraste observado posteriormente.

Esses registros fazem parte do programa OPAL, que usa o Hubble para observar regularmente Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Em vez de produzir apenas fotografias isoladas, o levantamento anual permite comparar o clima dos planetas gigantes durante anos e identificar fenômenos lentos que poderiam passar despercebidos.

Decágono no sul e hexágono no norte: qual é a diferença?

O hexágono do polo norte foi percebido nas passagens das Voyager 1 e 2, em 1980 e 1981, e continuou visível durante a missão Cassini. Ele mede aproximadamente 30 mil quilômetros de uma extremidade à outra, mais de duas vezes o diâmetro da Terra, e está ligado a uma corrente de jato com ventos próximos de 500 quilômetros por hora.

Sua característica mais impressionante é a longevidade. O hexágono já foi acompanhado por mais de 40 anos, um período superior a um ano de Saturno, que dura cerca de 29 anos terrestres. Apesar das mudanças de cor e da sucessão das estações, a forma de seis lados permaneceu reconhecível.

O decágono do sul parece mais jovem e dinâmico. Alguns de seus vértices são menos definidos que outros, enquanto o padrão inteiro se desloca lentamente em relação à rotação do planeta, a cerca de 10 quilômetros por hora. Os ventos da corrente de jato que o sustenta, porém, alcançam aproximadamente 400 quilômetros por hora. A diferença sugere que estamos diante de uma estrutura ainda em evolução e possivelmente menos estável.

O vídeo do canal Além da Matéria sobre Saturno foi produzido antes desta nova descoberta e, por isso, ainda não mostra o decágono. Ele explica o famoso hexágono do norte e várias outras estranhezas do planeta, funcionando como complemento para entender por que esta atualização torna Saturno ainda mais extraordinário.

Miniatura do vídeo: As grandes estranhezas de Saturno, incluindo o hexágono do polo norteAssistir ao vídeo sobre Saturno

Como uma atmosfera pode formar uma figura geométrica?

As bordas de um polígono atmosférico não são linhas rígidas. Elas representam os picos e vales de uma onda que viaja por uma corrente de jato. Quando a velocidade do fluxo, a rotação do planeta, a diferença de temperatura e a estabilidade das camadas entram em determinada combinação, a corrente pode deixar de formar um círculo perfeito e começar a serpentear de maneira organizada.

Experimentos em laboratórios terrestres já reproduziram hexágonos, quadrados, octógonos e outros polígonos usando líquidos em recipientes giratórios. Isso mostra que a geometria pode surgir naturalmente da dinâmica dos fluidos, sem qualquer mecanismo externo desenhando os lados.

No estudo do decágono, os pesquisadores utilizaram um modelo de águas rasas para demonstrar que uma onda de dez lados pode emergir em um fluido turbulento. O modelo mostra que o fenômeno é fisicamente possível, mas ainda não reconstrói todos os detalhes observados em Saturno. Produzir um decágono numa simulação não é o mesmo que descobrir exatamente por que ele apareceu agora no planeta.

Um vórtice pode ter iniciado a transformação

Uma das pistas está logo ao norte do novo polígono. Os cientistas identificaram um vórtice anticiclônico compacto por volta de 55 graus de latitude sul. Ele já aparecia em 2023, mas escureceu intensamente em 2025, pouco antes de o decágono se tornar mais evidente.

A hipótese é que esse vórtice tenha perturbado a corrente de jato e iniciado a ondulação. Depois, o equilíbrio entre a rotação, os ventos e as diferenças de pressão poderia ter organizado e sustentado os dez lados. É uma explicação plausível, mas ainda não demonstrada.

Para testar a ideia, serão necessárias simulações tridimensionais mais detalhadas e novas observações em diferentes comprimentos de onda. Os pesquisadores precisam descobrir até que profundidade a perturbação alcança e se a mudança do vórtice realmente ocorreu antes da formação do polígono, em vez de ser apenas outro efeito do mesmo processo.

Por que o decágono aparece azulado?

Na imagem colorida divulgada pelas equipes do Hubble, a região interna do decágono apresenta uma tonalidade azul-esverdeada. Essas cores são produzidas a partir de observações em filtros específicos e ajudam os pesquisadores a separar nuvens e partículas localizadas em altitudes diferentes.

A composição dos aerossóis responsáveis pela aparência azul ainda não foi determinada. No hexágono do norte, a quantidade e a cor da névoa já mudaram conforme a região passou da primavera para o verão saturniano. A luz solar quebra moléculas de metano e favorece a formação de partículas de hidrocarbonetos, criando uma névoa comparada ao smog terrestre.

O sul de Saturno está voltando a receber mais luz depois de um longo inverno. Por isso, as estações podem estar relacionadas à transformação observada. Mas a coincidência temporal não prova que a iluminação solar criou o decágono: ela pode ter alterado sua aparência, ajudado a estabilizá-lo ou simplesmente tornado a onda mais fácil de detectar.

Por que a Cassini não viu essa estrutura?

A sonda Cassini orbitou Saturno entre 2004 e 2017 e examinou o hemisfério sul com detalhes que nenhum telescópio terrestre conseguia alcançar. Ela registrou pequenas perturbações com aparência poligonal perto da mesma corrente de jato, mas essas formas duraram poucos dias e nunca se transformaram numa estrutura persistente comparável à atual.

Essa ausência é um dos principais indícios de que o decágono se formou recentemente, possivelmente entre o fim da missão Cassini e as primeiras evidências encontradas pelo Hubble em 2023. Também existe uma limitação observacional: durante parte desse intervalo, as estações e a inclinação de Saturno deixaram o polo sul em posição desfavorável para telescópios próximos da Terra.

Quando o hemisfério sul voltou gradualmente ao nosso campo de visão, a rede de astrônomos amadores e o acompanhamento do OPAL preencheram parte da lacuna deixada pela Cassini. O caso mostra que uma descoberta importante não exige apenas um telescópio poderoso — exige observar o mesmo mundo repetidamente e comparar o que mudou.

O que os cientistas ainda não sabem?

A origem exata do decágono permanece desconhecida. Não sabemos qual combinação de ventos, temperaturas, vórtices e movimentos verticais selecionou justamente dez lados, nem por que o fenômeno surgiu no sul depois de décadas sem uma estrutura equivalente ao hexágono do norte.

Também não está claro quanto tempo ele sobreviverá. O decágono pode desaparecer após alguns anos, mudar de número de lados ou alcançar uma estabilidade comparável à do hexágono. Seu comportamento durante as próximas estações será uma prova importante para os modelos atmosféricos.

Outra pergunta é por que Saturno produz polígonos tão marcantes enquanto outros gigantes gasosos não mostram exatamente o mesmo comportamento. Júpiter possui conjuntos de ciclones organizados em padrões de cinco e oito lados ao redor dos polos, mas o mecanismo e a aparência são diferentes. Comparar esses mundos ajuda a separar leis gerais da meteorologia planetária de fenômenos específicos de cada planeta.

Saturno acaba de ficar ainda mais estranho

O decágono do polo sul não substitui o hexágono do norte e não é apenas uma versão com quatro lados a mais. Um é extraordinariamente duradouro e quase estacionário; o outro parece recente, desloca-se lentamente e ainda ganha definição. Juntos, eles transformam Saturno num laboratório natural para entender como movimentos caóticos podem criar formas surpreendentemente organizadas.

Nos próximos anos, o Hubble, o Telescópio Espacial James Webb, observatórios terrestres e simulações computacionais deverão acompanhar a evolução da nova estrutura. Se o decágono permanecer, os cientistas poderão observar como um polígono atmosférico amadurece. Se desaparecer, terão registrado um fenômeno raro do começo ao fim.

Saturno sempre chamou atenção por seus anéis, mas sua atmosfera talvez seja ainda mais estranha. Um planeta sem superfície sólida, atravessado por ventos violentos, já mantinha um hexágono maior que a Terra durante décadas. Agora, no extremo oposto, uma nova figura de dez lados está se formando diante de nossos telescópios.

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Esta matéria foi elaborada com base nas fontes primárias e institucionais abaixo.

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Magnon Silva

Criador do Além da Matéria, projeto dedicado a explicar astronomia, física e exploração espacial com clareza e contexto.